22 de ago de 2011

Driving Music, Gui Amabis

Driving Music - Comic Sans

Toda vez que eu ouço falar de uma banda nova brasileira que canta em inglês, eu sempre torço o nariz - algo que eu já abordei um pouco aqui. Mas quando se tratou do trabalho de Fábio Andrade, sob o nome da Driving Music, algo diferente aconteceu. Comic Sans (disponível para download no link acima), lançado pelo selo carioca midsummer madness em 2011, é um bonito álbum, filho bastardo de discos como Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, e Either Or, do finado Elliott Smith. Pelo menos é o que dá pra sentir em músicas como "Orange Fruit Comes" e "Aphasic Singalong", enquanto "Settle" tem uma condução típica do Manic Street Preachers. O destaque do disco, porém, fica para a facilmente cantarolável "Watching the Wind".

Gui Amabis - Memórias Luso Africanas

O título de Memórias Luso-Africanas pode trazer ao ouvinte alguma ideia de álbum conceitual viajante por motivos particulares e emocionais de Gui Amabis. Não deixa de ser verdade, mas é muito mais uma boa coleção de canções que o produtor fez sozinho, contando com a participação de três nomes em alta rotação na cena indie paulistana: CéU, Criolo e Tulipa Ruiz. Tulipa se apega ao seu padrão romântico-idealista nas fofas "Sal e Amor" e "Ao Mar", enquanto CéU põe à prova todo seu charme em "Swell", uma faixa com cheiro e gosto de maresia. Já Criolo faz bonito na canção "Para Mulatu", que traz consigo algo do passado negro, "toda a beleza dos tambores", como diria o próprio cantor. Vale a pena conferir.

12 de ago de 2011

Vida de Solteiro

Escrevi sobre esse filme anos atrás, no Anúncio de Refrigerante, um dos muitos blogs que já tive e ficaram perdidos pela internet. A versão que segue é uma revisão daquele texto antigo, então não estranhe se o que vem abaixo lhe parecer familiar.

Quando se é solteiro, é comum que os amigos sejam as pessoas com quem mais convivemos: companheiros de cerveja, de carteado, de shows de rock suados e barulhentos, de noites simplesmente jogando conversa fiada. Estão todos na mesma, procurando ou tentando esquecer alguém – todos têm os mesmos problemas, a diferença é que alguns escondem isso bem e outros não. Quando se é solteiro, vai-se para a noite tentando não ter qualquer preocupação e com apenas um objetivo: se dar bem, pelo menos, até a manhã seguinte.

7 de ago de 2011

Fountains of Wayne, Miles Kane

Pra quem não viu ainda: lá no Scream&Yell saíram dois textos meus recentemente. Um é uma análise sobre a série Harry Potter, e o outro é uma entrevista que eu fiz em maio com o Giancarlo Rufatto, quando a Hotel Avenida ainda existia e veio a São Paulo para dividir o palco com o Lestics. Enfim, tá esperando o quê pra ir lá ler?

Fountains of Wayne - Sky Full of Holes

Adam Schlesinger, um hitmaker à moda antiga, está de volta com sua banda Fountains of Wayne. Pra quem não se lembra - ou não sabe - o baixista Schlesinger é o responsável por duas pepitas pop de filmes musicais dos últimos tempos: "That Thing You Do" (The Wonders) e "Way Back into Love" (Letra & Música). Além disso, junto com seu parceiro Chris Collingwood, compôs "Stacy's Mom", música que catapultou a carreira do FoW para as paradas de sucesso. Em "Sky Full of Holes", não há nenhuma canção que tenha o mesmo punch radiofônico que "Stacy's" tinha. Entretanto, trata-se sem dúvida de um bonito trabalho, pontuado por um power pop delicioso, feito pra ser escutado em estradas com vento na cara. Entre os destaques, a faixa de abertura "The Summer Place", a ensolarada balada "A Dip In the Ocean" e a romântica "A Road Song". A certa altura desta última, o FoW canta: "I've been writing you a road song/It's a cliché, but hey/That doesn't make it so wrong". Às vezes a música pop é só isso mesmo - e tudo bem.

Miles Kane - Colour of the Trap

Colour of the Trap, primeiro disco solo do inglês Miles Kane, tem sido recebido pela crítica inglesa e americana com muito alarde e interesse. Não é para tanto, mas seria injusto dizer que o álbum não merece a sua atenção, caro leitor. O trabalho de Miles pertence inegavelmente aos anos 2000, com caracteres do rock elegante e urgente que aparece, por exemplo, na obra dos Arctic Monkeys - de quem Kane é bem próximo. Entretanto, passeios por sonoridades perdidas durante os anos 60 e 70 dão um colorido todo especial às canções que compõe este Colour of the Trap. Vale a pena dar uma escutada no clima "soul de branco" de "Rearrange", no bonito refrão de "Counting Down The Days", e no charme de "Take The Night From Me". Noel Gallagher, do Oasis, faz backing vocals em "My Fantasy", a faixa mais bacana do álbum.

5 de ago de 2011

Colin Meloy & Seus Covers

Não, o título do post não é o nome de uma nova banda à moda da Jovem Guarda. Colin Meloy, pra quem não sabe, é o vocalista dos The Decemberists, banda responsável por um dos discos mais bonitos - e surpreendentes do ano até agora. Não escrevi ainda sobre ele aqui, e acho que depois desse artigo enorme - mas que vale muito a pena ler - do Marcelo Costa, no Scream & Yell, não tenho muito mais a acrescentar.

Entretanto, qual não é a minha surpresa em descobrir que além de ter um baita trabalho autoral, o cara - seja com os Decemberists, seja solo - ainda tem um bom gosto e uma capacidade muito bacana de fazer covers geniais. No começo do ano, já tinha aparecido uma versão da banda americana para "Cuyahoga", petardo de 1986 do R.E.M.


Além deste, dá pra prestar atenção em uma boa coleção, que vai desde Sam Cooke ("Cupid") e The Band ("The Weight", ao vivo no Festival de Newport) até Morrissey ("Everyday is Like Sunday") e Leonard Cohen ("Hey, That's No Way to Say Goodbye"). Enjoy ;P

2 de ago de 2011

Ditado

Fazendo um balanço rápido do que houve de bom em 2011 até agora para a música brasileira, é impossível deixar passar batidos dois nomes: Criolo e Rômulo Fróes. Algumas características os unem: ambos são de São Paulo, refletem bastante sobre a cena que os cerca, passaram um tempo razoável como quase anônimos até chamar a atenção da mídia e, por fim, mas não menos importante, utilizam o samba como um dos veículos principais para suas composições. Entretanto, o fazem de maneira diferente: enquanto Criolo - de quem já falei neste espaço antes - se apropria de uma linguagem que é de sua origem, e a soma com outros modos de cantar (como o rap), Rômulo Fróes canta sambas como quem até invadisse essa linguagem. Colocando-se como um estudioso - "Não sou sambista, mas lido com o samba porque afinal sou um compositor de música brasileira e tenho esse direito", disse ele ao Alto-Falante -, o cantor não pode deixar de lado o ritmo dos tambores. Mesmo que deixe o samba mais concreto e mais torto, Fróes o faz de maneira exemplar ao longo das 14 canções que compõe seu mais recente trabalho, Um Labirinto em Cada Pé.